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Está nas pequenas coisas

 

Larua Motooka Kozima

 

       O homem saiu do trabalho transtornado. Sentindo-se perdido, desceu a rua, entrou em seu café preferido e sentou-se em sua mesa de sempre. Olhou ao seu redor a procura de um barista e deparou-se com alguém que nunca tinha visto. Uma moça, de camiseta preta e com longas tranças em um rabo alto. “Funcionária nova?”, pensou ele. “Não, ela acabou de fazer um pedido”. E então lhe ocorreu.

       “O racismo estrutural existe e todos aqui inevitavelmente já foram racistas”, disse a ativista na palestra à sua empresa. “Ele está nas pequenas coisas. A chave é detectá-lo e saber corrigir-se”.

       Olhou para a pequena televisão acima do balcão. Debate político. Observou todos os senadores presentes: um, no máximo dois negros. “Como eu nunca havia notado?”, perguntava-se o homem. Pegou seu celular e pôs-se a assistir o noticiário: jornalistas brancos. Redes sociais: artistas brancos.

       A realidade era um choque para ele. Levantou-se, foi até o balcão para pagar sua conta. Ouviu por acaso uma conversa entre dois colegas de serviço: “...a coisa tá preta irmão, os caras estão tentando me denegrir pra roubar meu cargo... os dois e a moça de cabelo ruim!”

       Estava em toda parte. Não precisava muito para percebê-lo. Seu instinto dizia-lhe “mas eu não sou racista, tenho até amigos pretos!”, enquanto sua consciência gritava “e quanto às outras pessoas? O homem a quem você recusou o emprego em favor de um loiro de olhos azuis com a mesma qualificação, o garoto de quem você desviou trocando de calçada, a mulher que julgou ser empregada do café, o médico que achou ser enfermeiro...”

       Seu interior estava em luta. Demoraram algumas décadas, mas ele finalmente saíra de sua bolha por tempo suficiente para entender seu privilégio ao aprender sobre o racismo por meio de uma palestra em seu emprego, que inicialmente ele julgara desnecessária, ao invés de vivenciá-lo diariamente.

 

(Laura Motooka Kozima, aluna do 2º. Ano do Ensino Médio)

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